“Quando a liberdade de uma mulher vira argumento contra a liberdade das outras”, por Milene Cunha
Uma mulher abre a câmera, fala a milhares de seguidores e declara ser contra o voto feminino. Há mais que contradição nessa cena e seria um erro tratá-la apenas como curiosidade da internet. Uma matéria da BBC News Brasil sobre influenciadores que atacam o sufrágio feminino mostra que uma ideia historicamente derrotada voltou a circular como proposta política defensável. É legítimo que uma mulher escolha não votar quando a lei lhe permita ou defenda para si uma vida centrada na família. O que não se pode confundir com escolha pessoal é a proposta de retirar das demais mulheres o direito de decidir. O voto não obriga ninguém a pensar de determinada maneira; ele impede que o Estado atribua menor valor político à opinião de alguém por ser mulher. É difícil assistir a esses posicionamentos sem pensar no filme O Aniversário, dirigido por Jan Komasa, e na série O Conto da Aia, criada para a televisão por Bruce Miller a partir do romance de Margaret Atwood. Ambos constroem cenários distintos de erosão da liberdade. No primeiro, a radicalização política atravessa a vida de uma família e transforma, gradualmente, o que seus integrantes aceitam como normal. Na segunda, a perda da autonomia feminina aparece em sua forma extrema: mulheres submetidas a uma ordem que lhes retira voz, trabalho e controle sobre a própria vida e corpo. Essas ficções são inquietantes porque mostram como uma ruptura pode ser precedida pela normalização de ideias que antes causariam espanto. Nos levam a questionar: Em que momento uma sociedade passa a considerar negociável a igualdade de direitos? A pergunta também cabe fora da ficção. Nos últimos anos, divergências políticas chegaram com intensidade às mesas de almoço e jantar, por vezes rompendo relações entre pessoas muito próximas. Discordar, contudo, faz parte da vida democrática. O limite é ultrapassado e o sinal de alerta aparece quando a discussão deixa de ser sobre escolhas políticas e passa a ser sobre quem tem o direito de fazê-las. Ao defender que mulheres não deveriam votar, não se questiona uma decisão eleitoral. Questiona-se a condição das mulheres como cidadãs plenas. A história brasileira mostra por que esse limite importa. O Código Eleitoral de 1932 reconheceu às mulheres o direito de votar e de serem votadas; a equiparação dos deveres eleitorais entre mulheres e homens só veio em 1965. A Constituição de 1988 afirmou a igualdade entre ambos e estabeleceu o voto com valor igual para todos. Cada etapa resultou de mobilização e disputa, e não de uma concessão espontânea. Vidas humanas foram perdidas nesse processo. Não se deve apagar o custo dessas conquistas nem presumir que, uma vez inscritas na lei, estarão protegidas de todo retrocesso. O direito de votar, além disso, não eliminou a desigualdade no exercício do poder. Nas eleições de 2022, mulheres conquistaram somente 91 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados: 17,7% do total. A proximidade das eleições torna essa discussão ainda mais urgente. Em poucos dias, mulheres irão às urnas para escolher quem ocupará a Presidência da República, os governos estaduais e cadeiras no Legislativo. Entre essas escolhas estarão as pessoas que decidirão sobre políticas de saúde, educação, trabalho, segurança e proteção contra a violência. Justamente por isso, há uma profunda incoerência na posição das influenciadoras contrárias ao voto feminino. Elas podem estudar, trabalhar, empreender, receber pelo próprio trabalho, ocupar o debate público e contestar autoridades porque vivem em uma ordem jurídica que reconhece mulheres como pessoas capazes de fazer escolhas. Ora, a participação política das mulheres é parte essencial da defesa e da preservação dessas liberdades. Quem usa sua audiência para pedir o silêncio político de outras mulheres se vale de uma autonomia que sua proposta ajudaria a enfraquecer. Em palavras simples: usa a própria voz para sustentar uma regra que diminuiria a voz de todas. O perigo, portanto, não reside em uma proposta imediata e real de revogação do voto feminino. Ele começa antes, quando se repete que mulheres votam “mal” por serem mulheres; quando a crítica a escolhas eleitorais se converte em desqualificação de metade da população; quando a renúncia individual a um direito é apresentada como virtude que todas deveriam imitar. A exclusão da mulher pode voltar ao debate público primeiro como piada, depois como provocação e, por fim, acaba reivindicando espaço no debate público como se fosse apenas mais uma alternativa política. As redes sociais têm responsabilidade nesse percurso. Seus algoritmos e mecanismos de recomendação, publicidade e monetização podem viralizar conteúdos que atraem atenção pela indignação que provocam. Isso exige transparência sobre como esses conteúdos são distribuídos e financiados, critérios consistentes para aplicar as regras das plataformas e canais eficazes para denunciar ameaças, assédio e violência política de gênero. Permitir que alguém expresse uma opinião não obriga uma plataforma a impulsioná-la sem prestar contas dos critérios que utiliza. A resposta pública precisa ser firme e concreta. Escolas devem ensinar a história dos direitos políticos e seu significado; instituições eleitorais devem enfrentar a violência que afasta mulheres da participação pública; plataformas devem explicar como amplificam conteúdos; lideranças políticas devem recusar, sem ambiguidades, a premissa de que um voto possa valer menos conforme o sexo de quem o deposita. Essas são medidas mais sérias do que simplesmente responder a um vídeo com outro vídeo indignado. Uma democracia pode conviver com pessoas que questionem seus fundamentos. Entretanto, ela não pode se dar ao luxo de esquecer o custo histórico de seu estágio atual. Quando uma mulher usa sua liberdade para defender que outras tenham menos voz, a resposta não deve ser silenciá-la. Deve ser mostrar, com história, dados e clareza, o que sua proposta custaria a todas — inclusive a ela. Nas próximas eleições, que exerçamos com consciência o direito de voto que tantas mulheres lutaram para conquistar. Afinal, nenhuma distopia começa pelo último capítulo. Por Milene Cunha – Conselheira Substituta do TCE/PA – Presidente da Audicon Publicado no dia 29/09/2026, no Blog do Fausto Macedo, Estadão. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/blog-do-fausto-macedo/quando-a-liberdade-de-uma-mulher-vira-argumento-contra-a-liberdade-das-outras/